A pousada que Lucas fez do cascalho
Em 2017, Lucas olhou para um terreno de cascalho abandonado e viu uma pousada. Hoje mais de 90% do café da manhã do Mirante dos Ipês sai da própria terra — leite, queijo, doce, morango e mel de abelha sem ferrão. Numa cidade que virou destino em poucos anos, ele fez ali um pequeno refúgio.
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- 15/09/2026
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- Assunto
- Gente daqui
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- Capitólio
Em 2017, Lucas apontou para um terreno abandonado, coberto de cascalho, e disse que ia fazer uma pousada ali.
"Achavam que eu era louco."
Ele é natural de Capitólio e viu a cidade virar destino nacional em poucos anos. Enquanto o turismo da região se organizava em torno de lancha, cânion e agenda cheia, Lucas passou nove anos construindo o oposto: a Pousada Mirante dos Ipês, onde o que impressiona quem chega é a calmaria, o som dos pássaros, o céu estrelado e a vista.
Em 2019, dois anos depois de começar, entendeu que tinha dado certo. Um ano difícil foi o da pandemia, mas a tragédia da pedra fez muitos perderem a esperança na cidade. Hoje o Mirante dos Ipês está entre as pousadas mais bem avaliadas da cidade.
O dia começa sem tela
A rotina começa de um jeito que ele mesmo chama de simples: acorda, escova os dentes e parte para o trabalho com a Maíssa.
O trabalho é preparar o café da manhã dos hóspedes e sentar para conversar com eles.
Não mexo no celular, não consumo conteúdo de massa nem me distraio com coisas fúteis. Passo a manhã com a família e com os hóspedes. Coisa simples que muitos não têm.
Mais de 90% do café da manhã é dali
A família tem fazenda e produz leite. Dali sai também queijo, doce de leite, rapadura e geleia de morango, tudo artesanal. Lucas cultiva morango e cria abelha sem ferrão. Mais de 90% do que vai à mesa sai da propriedade — que também gera a própria energia, em placas solares instaladas em 2019.
As abelhas vieram de um sonho de infância. O morango veio de uma decisão de negócio: ele queria ter o que oferecer ao hóspede além da cama. Hoje a colheita na horta e a degustação do mel, direto da caixa da abelha, são a experiência da casa.
Quando chove na florada, não tem mel
A safra do morango vai de maio a setembro, mas quem manda é o tempo — e morango não gosta de chuva. Este ano a chuva encurtou a produção: sobra menos para vender, mas a visitação continua, e quem se hospeda segue indo à horta colher.
Com o mel funciona igual, e Lucas explica o mecanismo com a precisão de quem perdeu produção por causa dele: a florada abre, chove, a chuva lava o néctar. Menos néctar, menos mel — e menos mel significa enxame menor no ano seguinte. Ele atribui a irregularidade ao El Niño, que na região desarruma principalmente a florada do café.
É a parte que não aparece na mesa do café da manhã: atrás de um pote de mel existe um calendário que ninguém controla.
"Acham que trabalho muito com o corpo e pouco com a cabeça"
É o que mais o incomoda no que dizem dele.
As pessoas não entendem o desafio de cuidar de coisas tão singelas. Muitos não entendem que requer esforço manter o espaço bonito, com capricho.
Um jardim bem cuidado parece só bonito. Nada ali denuncia o trabalho — e é exatamente esse o ponto.
Lucas fez quase tudo sozinho. Reclama da falta de mão de obra na região e nunca emplacou um projeto junto com a cidade — participa de vários, mas todos fora dela.
A cidade mudou
O que ele aponta como diferente em Capitólio desde criança não é o número de turistas. É a expansão urbana desordenada e a perda de área arborizada.
Enquanto isso, ele segue oferecendo o que está ficando raro por ali: silêncio, sombra e tempo.
Por que ele faz isso
Não é pelo turismo. É pelos filhos: quer dar a eles uma infância com animal, mata e comida produzida em casa. Trabalha muito para isso e não trata como sacrifício.
O lugar, na frase dele, é "tranquilidade e paz, mente sempre sã".
E a regra que ele carrega, atribuída a Enéas: "só o conhecimento liberta". Foi o que fez — foi atrás de conhecimento e trouxe para dentro da porteira.