Como a Fazenda Santa Estrela vem recuperando a terra

Quando a família comprou a Fazenda Santa Estrela, ela estava sem investimentos há dez anos. Hoje mil metros quadrados de agrofloresta produzem café, ervas dos chás e as plantas dos óleos essenciais, além da própria adubação, lenha e até os moirões da cerca.

Publicado em
19/09/2026
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Capitólio

O café que Adriana toma de manhã foi plantado por ela e pelas irmãs, no sistema que ela mesma desenhou.

Mas muitas outras coisas saem da sua agrofloresta além do café, como: chás, temperos, legumes, frutas e vegetais. É assim que uma agrofloresta funciona. O mesmo terreno que dá o café dá as ervas dos chás, as plantas dos óleos essenciais, o material da adubação, a cobertura do solo, a lenha e os moirões das cercas.

Café agroflorestal

Não há dois dias iguais

O que ela faz num dia não cabe numa profissão. Ela faz o cultivo agroflorestal na Fazenda Santa Estrela. Cuida da formulação artesanal — as geleias, os óleos essenciais, os chás. Sendo muito ativa na sua comunidade, ela também atua em: gestão de eventos, oficinas culturais, reuniões comunitárias, projetos de horticultura e de agricultura familiar.

É o retrato de uma operação pequena, em que a mesma pessoa desenha o sistema, extrai o óleo, dá a aula e vai à reunião. Mas a Adriana não está sozinha nessa missão, suas irmãs Rosania e Margo também cuidam da fazenda da família.

Adriana e a família

A manhã

Começa pelo café — que ela mesma plantou com as irmãs. Muitas vezes toma com a família. Depois vem o exercício: caminhada ou pilates.

Depois então vem o trabalho: organizar os insumos botânicos e as ervas medicinais, e planejar as atividades práticas do dia antes de começar seu fluxo produtivo.

A ordem importa. O planejamento vem antes da produção, não no meio dela.

Mil metros quadrados

O projeto vem sendo consolidado ao longo dos últimos cinco anos, e a agrofloresta tem hoje cerca de mil metros quadrados de módulos implementados. Muitas pessoas passaram por ali dando uma força, Adriana sempre promove mutirões florestais educativos.

Mutirão agroflorestal

Para a agricultura tradicional, é pouco — e é ela mesma quem faz a observação. Em uma área que parece pequena ela obtém a matéria-prima dos chás, dos óleos essenciais e o precioso café agroflorestal, além dos próprios insumos de adubação, da cobertura do solo, da lenha e dos moirões de cerca.

A área, segundo ela, vive em constante transformação.

O que havia ali antes

Quando a família comprou a fazenda, ela estava praticamente abandonada. O último proprietário tinha morrido e o lugar passara uns dez anos alugado, sem investimento nenhum: cerca inexistente, casa precisando de reforma, pasto degradado.

Começaram pela casa, depois pelo pomar e pelo quintal. Pouco a pouco refizeram as cercas, e os módulos da agrofloresta foram também lentamente sendo ampliados.

Não há equipe fixa para o trabalho pesado, além da família, a Adriana conta com pessoas contratadas ou mutirões com amigos. Plantio, colheita e manejo são planejados de acordo com cada estação do ano — é como dá para fazer. Assim, o manejo tradicional do solo vai virando, devagar, uma estrutura regenerativa e rica em biodiversidade.

De onde veio a ideia

Ela buscava um modelo agrícola sustentável e regenerativo, integrado à natureza: produzir o próprio alimento e insumo botânico sem trabalhar contra a natureza e os ciclos do ecossistema local.

Colheita manual do café

Quando começou, a reação não foi descrença — as pessoas tinham curiosidade. Produzir óleos essenciais na agrofloresta é algo diferente do que as pessoas estão acostumadas a ver, isso acaba despertando pergunta antes de desconfiança.

O mês em que as duas coisas vieram juntas

O fato de o grupo ser formado majoritariamente por mulheres torna o projeto desafiador por si só, há tarefas que exigem força e muita destreza com ferramentas. As habilidades vieram com o tempo.

Mas houve desafios maiores desde o início. Ela perdeu um familiar para a covid-19 — que era idealizador do projeto e seu maior incentivador — e, no mesmo mês, viu um incêndio queimar 70% da mata da propriedade, causando grande estrago para a flora e a fauna.

"Acham que é apenas plantar"

É o que mais a incomoda no que dizem do trabalho dela.

Geralmente pensam que é apenas "plantar", não percebem o rigor técnico envolvido no desenho e planejamento de um sistema agroflorestal.

Esse desenho decide coisas que aparecem lá no produto final: a qualidade dos aromas, os princípios ativos das plantas medicinais, a regeneração do solo e a biodiversidade recuperada.

O que ela produz

A produção tem três frentes, e elas não são o mesmo negócio.

A de aromaterapia e práticas integrativas: óleos essenciais e blends terapêuticos. A de alimentos e conservas: geleias artesanais, doces e chás. E a das ervas medicinais, que servem tanto às infusões quanto às oficinas — onde o assunto é o uso correto delas, que não é assunto pequeno.

Óleos

O que mais surpreende quem prova, segundo ela, é a experiência inteira: sentir o cheiro na planta e depois no produto acabado, e as harmonizações com o mel e o queijo da Canastra.

O reconhecimento veio de fora da porteira

Adriana situa o "deu certo" em dois momentos, e nenhum deles é uma venda: levar as experiências sensoriais de óleos essenciais ao Festival Gastronômico de Capitólio, e ter projetos aprovados em editais públicos para dar cursos de artesanato à comunidade rural.

Geleias e chás

A lista do que ela toca fora da fazenda é longa. Mobilização e diálogo sobre saneamento e preservação do Lago de Furnas. Movimento de feirantes, incentivando a produção local. Mutirões de plantio agroflorestal na região, como os da Claudinha, no Grotão. Fornecimento de alimento para a merenda escolar. Oficinas sensoriais no Festival Gastronômico. O curso "Pontos & Plantas" — bordado e ervas medicinais na mesma aula, no centro comunitário do Grotão, pela Lei Aldir Blanc. Cursos de bordado e de impressão botânica. E o coral municipal de Capitólio, que ela ajuda a coordenar.

A cidade mudou, e a água junto

O que ela aponta de diferente em Capitólio é o turismo mudando a economia e o uso da terra. E o que isso passou a cobrar: preservar o solo, o recurso natural e a qualidade da água, numa escala que antes não era necessária.

Por que ela faz isso

A Fazenda Santa Estrela é um espaço de regeneração não só da terra como de nós mesmas.

Adriana

A motivação, nas palavras dela, é cultivar a terra de forma consciente, resgatar tradições e transformar planta medicinal em saúde, arte e conexão.

E a frase que ela quis deixar amarra o bordado à roça — o que, no caso dela, não é figura de linguagem: ela ensina os dois na mesma oficina.

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