Antes do lago, aqui era vale
O lago não estava aqui. Entre 1958 e 1963, uma obra para o país não ficar sem luz represou o Rio Grande e o Sapucaí, afundou cidades inteiras e fez um rio trocar de bacia. O cânion que todo mundo fotografa é a rocha que apareceu quando a água subiu.
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- 15/09/2026
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- Assunto
- História
- Cidade
- Capitólio
O paredão é antigo. O cânion, não.
Até 1963 aquilo ali era a encosta seca de um vale, com o Rio Grande correndo lá no fundo. O que transformou rocha em cânion foi a água subir — e a água subiu porque o Brasil estava para ficar sem luz.
Uma obra para o país não apagar
A hidrelétrica de Furnas foi projeto do governo de Juscelino Kubitschek, e a pressa tinha motivo: o país que industrializava a passos largos caminhava para um colapso de energia. As obras começaram em 1958 e a usina entrou em operação em 1963.
A engenharia brasileira conduziu o projeto, com engenheiros dos Estados Unidos e da Europa. Na época, foi considerada a maior obra da América Latina.
A barragem
São 127 metros de altura por cerca de 550 de extensão. A técnica escolhida foi a barragem de enrocamento — um maciço de rocha lançada, com núcleo impermeável no meio —, então uma solução nova por aqui.
O rio que trocou de bacia
A parte mais estranha da obra não foi a barragem. Foi o Rio Piumhi.
Ele corria para o Rio Grande, ou seja, para a bacia do Paraná. Os engenheiros o desviaram para desaguar na bacia do São Francisco: uma transposição entre bacias, coisa que não se faz todo dia. E, para que o represamento não perdesse capacidade — e para que Capitólio não fosse inundada —, construíram um dique de contenção.
Vale reler essa frase. A cidade que hoje vive do lago está de pé porque alguém, no começo dos anos 1960, decidiu até onde a água ia chegar.
O que ficou embaixo
Dois rios foram represados, o Grande e o Sapucaí. Cidades saíram do mapa: São José da Barra foi submersa; Guapé perdeu parte de si.
O tamanho da coisa
O lago banha 34 municípios de Minas Gerais e tem cerca de 1.440 km² de espelho d'água. O volume máximo de armazenamento chega a 22,95 bilhões de metros cúbicos — algo como dez vezes a Baía de Guanabara inteira.
Mas o número que dá a medida da coisa não é a área: é a borda. São 3.500 km de margem, e a linha de costa do Brasil, medida em traço corrido, tem 7.491 km. O contorno de um lago em Minas dá quase metade do litoral do país.
A comparação depende de como se mede o litoral. Pela conta do IBGE, que acompanha cada reentrância da costa, são quase 11 mil km — e aí Furnas fica em torno de um terço. De um jeito ou de outro, é borda demais para um lago.
Por que o nível muda
O lago não é paisagem parada: é peça de uma máquina.
O volume sobe e desce conforme Furnas precisa soltar água pelos geradores — para produzir energia, ou para dar calado à navegação rio abaixo, na hidrovia Tietê-Paraná, por onde descem os comboios de grãos.
É por isso que a mesma praia aparece larga numa foto e estreita na outra. E é por isso que vale conferir o nível antes de subir a serra atrás de um lugar específico.
O turismo é a parte nova
Por décadas o que se fazia com aquela água era criar peixe: a piscicultura foi a principal atividade econômica do lago até os anos 2000, quando o turismo começou a pegar.
Quer dizer que quase tudo que hoje se vende como "o Lago de Furnas" tem vinte e poucos anos. A água tem sessenta.